A BOLA DO BARBERINHO

A BOLA DO BARBERINHO

Do contador de histórias e escritor da periferia – Craque Kiko.

Membro da ALVI – Academia de Letras do Vale do Iguaçu.

Meu papai era um barbeiro. Seu salão era na Getúlio Vargas, em Porto União. Tirava o nosso sustento dependendo quantos entrassem para cortar a juba ou pelar a barba. Às vezes, íamos dormir mais cedo para enganar a fome. Era assim, dia sim, e dia também, mas a felicidade dali nunca escapou. As poucas posses, um dia viriam.

Eu, o mais velho da prole amava chutar uma bola. Quando tinha uma, dormia com ela, bem dito, quando tinha. E, num de repente, um capotão número três apareceu pela nossa casa. A mamãe tinha dado para mim uns mirréis para comprar uma porção de fígado. Sem autorização, talvez cutucado pelo chefe das profundezas – aquele que manda lá onde ninam os maus –, a porção comprada foi diminuída. Uns trocos sobraram. Então, uma livraria nas proximidades do açougue foi visitada. Ali, comprei uns pacotes de figurinhas para colar em um álbum de jogadores de futebol. Em um destes pacotes veio um vale-brinde, dando direito a uma bola de capotão número três. A minha boca aberta de satisfação encontrou os lados das minhas orelhas.

A bola oficial do futebol da época era a de número cinco, mas para a piazada ainda fraca de garrão, àquela viria a calhar. Que alegria! Que tristeza! Como contar para a mamãe o cambalacho feito. Vistas nas vistas, focinho no focinho, com coragem contei tintim por tintim de onde apareceu aquele capotão. De joelhos em grãos de milho foi o castigo pago. Tirei de letra. A tristeza maior estava por vir.

A notícia do aparecimento de uma bola de capotão número três viajou rápido pelas redondezas. A piazada queria meter o pé nela, coisa rara para nós do nosso bairro.

Conversa daqui conversa de lá, daríamos os chutes no campo de treino do Estádio Municipal de Porto União, localizado na parte mais baixa do Estádio, porque no campo principal jamais conseguiríamos, era sonhar demais. Mas, como lograr o seu Olegário, senhor que cuidava dos dois campos? Ele era muito brabo e diziam que tinha um trabuco que por pouca coisa pregava fogo. Alguém falou que viu ele dar um tiro em uns piás que tentavam pular o muro para adentrar ao Estádio. Um outro soltou a ideia. Dar uma garrafa de cachaça para ele, mas, e dinheiro para comprar, de onde? Essa hipótese foi deixada de lado. Aproveitaríamos o horário logo após o almoço, quando ele estivesse fazendo a siesta. Não deu certo, parecendo um castigo, naqueles dias ele não nanou. Até que a coisa se ajeitou, quando em uma tarde, seu Olegário foi cortar a grama do campo oficial. Com o barulho da máquina de cortar grama ele não ouvia o nosso alvoroço no campo de baixo, satisfazendo o nosso sonho, correndo atrás daquela bola de capotão número três.

A alegria era tanta que não percebemos no final da tarde o seu Olegário chegar por ali. Todos fugiram, exceção de mim, o Barberinho, filho do barbeiro, o dono da bola, que fora pego pela ponta da camisa que se rasgou. A bola fora confiscada.

A noite estava chegando. Meu papai em frente do grande portão me chamava com aquele conhecido assobio. E, nada do Barberinho aparecer. Minha mamãe também nervosa marcou presença por ali. As luzes da rua se acenderam. Lá ao longe me viram se aproximando, de cabeça baixa. Perceberam minha fisionomia triste e esqueceram momentaneamente de me passar um pito. Notaram que eu estava sem a bola. Contado a proeza feita, lá foi meu papai com a minha mamãe conversar com o guardião do Estádio. Na promessa que o senhor Olegário teria nos garantido uma vez por semana darmos uns chutes no campo principal, meu pai garantiu a ele que uma vez por semana, na faixa, passava a navalha pela sua barba.

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