A DAMA E O DAMO DO LOTAÇÃO.

A DAMA E O DAMO DO LOTAÇÃO.

Do escritor da periferia – Craque Kiko.

Causos da vida real.

Dia ensolarado de primavera. Já cedinho os raios solares animavam as pessoas que seguiam para a labuta. E, lá estava o fulano no ponto de sempre para apanhar o lotação. Diariamente seguia aquela rotina, pegava o busão para ir e voltar ao trabalho. Quando adentrava nunca tinha espaço para sentar. Totalmente cheio e com as pessoas se apertando em pé pelo corredor, como sempre, ali parecia não caber mais nem um palito de fósforo. Se segurando na travessa de ferro junto com os passageiros para não caírem pelas freadas, sentiu o calor de uma mão que também ali se segurando encostava na sua. De revesgueio, instintivamente olhou tentando identificar de quem era aquela mão. Era de uma dama. Tímida. Ela lhe deu um leve sorriso. Pelo aperto, com ela bem encostada no seu corpo, ele sentiu uma comichão e um arrepio da nuca até o final do carretel da espinha.

Descido no ponto final no centro das cidades, disfarçando, por cima do seu ombro, bombiou a fulana da riba até ao chão. Nunca a tinha visto. Achou que ela era muita lenha para sua fogueirinha.

Final da tarde, final de lida. Hora de apanhar o busão para o retorno ao lar. Como sempre o coletivo já estava entupido de gente, igual a um formigueiro. Em pé, se segurando na travessa de ferro, no devaneio, com os pensamentos a mil sobre o lote que teria que capinar e o serro de lenha que teria que cortar ainda naquele dia, o fulano novamente sentiu o calor de uma mão ser encostada na sua. Era ela, que aproveitando aquele apertamento de pessoas, só faltava lhe abraçar.

E assim, por dois meses, sem dizerem uma só palavra um para o outro, continuaram indo e vindo no transporte coletivo. Ele, como se já estivesse viciado, com seu nariz na nuca, sentia o cheiro do perfume e do shampoo do cabelo dela. Na timidez dos seus vinte anos, aquele fulano passou a ter insônias, e nos raros cochilos, os sonhos com ela estavam presentes, e aquilo estava lhe consumindo. Não mais conseguia tirá-la da cabeça, tinha que tomar uma atitude. Tomou. Em uma madrugadinha pulara da cama decidido, naquele dia, travaria uma prosa e a pediria em namoro.

Esquentou duas chaleiras de água no fogão a lenha. Encheu aquele enorme bacião de alumínio, e usando o sabão de coco, deu um trato no corpanzil. Caprichou desde o dedão do pé até o último fio de cabelo. Vestiu a sua roupa de missa. Passou no sovaco o desodorante da marca Avanço e usou na orelha o perfume de Almíscar que fora do seu falecido pai. Ora assobiando e ora cantarolando, se dirigiu até o ponto para apanhar o lotação.

Em pé no corredor e fitando para todo o lado não a viu. Se segurando na travessa, ficou esperando, vai que de repente a tão esperada mão encostasse na sua. Nada, simplesmente, nada aconteceu. Com olhos de águia, cuidava para ver quem entrava em cada parada – talvez ela subisse em outro ponto. Ela não apareceu. Nervoso, desceu no ponto de desembarque e foi caminhando cabisbaixo para o trabalho. O seu dia não prestou.

Na ânsia de acabar o expediente para ir logo para casa, não parava de cuidar as horas no relógio de parede que parecia andar a passos de enterro. No final da tarde, na correria, foi pegar o ônibus para retorno. Ela não estava nele, como não esteve nunca mais.

Literalmente ele murchou, a sua vida murchou. Às vezes, quando não se continha, se dava ao luxo de encostar o umbigo em um balcão. Bebia um, dois, até três martelinhos de pinga. Parecendo um caju chupado, virou um desleixado. Barbudo e cabeludo passou a não se assear direito. O pátio de sua casa virara um matagal. Passava frio no inverno, seu fogão não fora aceso, pois não tinha mais ânimo para picar a lenha. Até que! Sempre deveria ter um até que… e teve.

Perto das 10 horas alguém batia palmas na frente do seu portão. Com as vistas ainda cheias de remela ele foi atender. Era o carteiro com a já tradicional correspondência avisando que o auxílio desemprego seria depositado. Também, uma missiva tendo como remetente “A Dama do Lotação”, para aquela residência estava endereçada. O destinatário era um tal “Damo do lotação”, que imaginou ser ele. Somente estava escrita uma frase em um papel perfumado: “Se quiser ser feliz, na sexta-feira 13, pegue o ônibus como sempre fazia”. Parecendo que seu coração se lhe esvaia, levou as mãos ao peito. Respirou fundo. Se sentiu um Corifeu

Na segunda-feira uma barbearia fora visitada. Cortou o cabelo e a extensa barba. No restante daquela semana, entusiasmado, fez uma faxina na sua casa, capinou o seu lote e picou várias torinhas. O fogão a lenha voltou a ser aceso. Na noite de quinta para sexta-feira o sono passou longe da sua alcova. Os seus pensamentos a mil se concentravam nela. Antes do clarear, o bacião de alumínio já estava cheio d’água quente com sabão de coco. A vestimenta de missa estava bem passada e nos trinques. Já sem cracas pelo corpo aparou todas as unhas. Com uma água de cheiro que recém tinha comprado se perfumou. Passou uma glostora e repartindo-o ao meio, penteou bem os cabelos, deixando-os lisos e brilhantes. Um baita sorriso chegava até as orelhas. Andando nas pontas dos pés e cantarolando baixinho foi em direção ao ponto de lotação. Quando foi passar na catraca o cobrador mandou que descesse do busão. Na ânsia do encontro, tinha esquecido de levar dinheiro para pagar a passagem. Um nó engasgou-lhe os grugumilos. Nunca mais a viu.

Passou a perder a vertical, seguidamente era encontrado deitado na sarjeta. Bebia um, dois, três, quatro… martelinhos da “mardita”. Uma tristeza funda virou sua companheira até bater as botas.

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