Do escritor da periferia e contador de histórias – Craque Kiko.
Membro da ALVI – Academia de Letras do Vale do Iguaçu.
Ainda tinha clientes na livraria. Já passava das 18 horas. A esposa saíra na rapidez para fazer a boia das duas crianças. Com o último cliente tendo azulado o pé dali, na correria, o Berne abaixou a porta de correr. Montou na sua moto “cinquentinha”, e também na rapidez, armou a capa em direção do seu lar. Teria pouco tempo para jogar uma água no lombo, vestir a farda de Papai Noel e rumar para a maior praça da cidade. Lá, como faz todo ano, distribuiria balas e pirulitos para a criançada.
Saindo da livraria, com o sinal fechado parou no primeiro sinaleiro daquela via de mão única, ao lado de uma viatura da polícia militar, que ali estava estacionada e fazia a ronda. Um dos policiais, num sorriso meio que maroto, o fitou. Também sorrindo, Berne lhe dirigindo a palavra travou uma prosa:
– Opa! Tudo bem?
Respondeu o policial:
– Comigo está tudo bem, mas contigo parece que não! Você não vai colocar o capacete?
Berne tremeu na base ao olhar o capacete pendurado na traseira do lado direito da motinha. Tinha esquecido de colocá-lo. Meio nervoso, começou a encontrar dificuldades em colocar o capacete no cocuruto. O sinaleiro ficou verde. Quando terminou de colocar o capacete o sinal tinha fechado novamente. Além das buzinadas também ouviu alguns palavrões. Sem coragem de encarar o policial, pelo canto de um olho pode ver ele escrevendo em um caderninho. Pensou! No mínimo esse carniça me multou.
O banho foi basculado. Se fardou de Papai Noel. A esposa lhe colocou nas costas a mochila cheia de balas e pirulitos. Abraçou as crianças, deu um beijo na patroa, e com a cinquentinha roncando alto e soltando fumaça pelo escapamento, lá foi ele para a praça. Num instante aquele lugar ficou apinhado de crianças. E, num instante as guloseimas de dentro da mochila acabaram.
Uns piazões, já crescidinhos, daqueles que não tiveram uma mãe para lhes ensinar boas maneiras, começaram a proferir palavras de baixo calão e queriam, na marra, pegar a sua mochila. Tentando se defender, o Papai Noel Berne, se coçou simulando que tinha uma arma escondida na barriga e ia pregar fogo. Ouviu-se um gritedo daqueles piás dizendo que o Papai Noel de araque estava com uma arma e tinha ameaçado dar tiros.
Um enorme tumulto se formou. A polícia fora chamada. Papai Noel Berne se viu cercado de gente. O mais graduado dos três policiais pediu para que o Papai Noel retirasse a touca e a barba postiça. Estupefato, encarando o agora Berne, o policial iniciou um proseio:
– Você de novo! Não satisfeito em andar sem capacete, agora, você arma uma confusão no meio dessa gente toda.
Encarando o policial, Berne o reconheceu e tremeu na base. E não restou outra alternativa, senão, entrar na viatura e ir dar explicações no quartel. Lá, tiveram uma prosa longa. Berne contou tintim por tintim, desde a hora em que sua patroa saiu da livraria até ele ter tido problemas com os piás na praça.
Berne foi levado de volta na praça. Tinha deixado a palavra ao comandante, que no dia 24 de dezembro, seria o Papai Noel das crianças filhas dos praças.







