Do contador de histórias e escritor da periferia – Craque Kiko.
Membro da ALVI – Academia de Letras do Vale do Iguaçu.
João Chumbo veio ao mundo como muitos dos seres humanos, de sete meses. Perto de três anos ele achou na rua uma bala de um trinta e oito. Se apaixonou por aquilo. Nunca mais se desfez do projétil, brincava com ele, comia com ele e chegava a dormir com ele.
João Chumbo foi para o jardim de infância, sempre com o projétil do revólver na mão, não desgrudava dele. Ingressou no grupo escolar, foi o terror das professoras e nas brincadeiras da roda cotia não entrava. Ficava de longe. Quando zangado dizia os maiores palavrões que deixavam as professora com vergonha. Como é que um menininho poder ser tão maroto, fofocavam elas.
Nas aulas de trabalhos manuais, enquanto seus coleguinhas faziam carrinhos, barquinhos e as meninas montavam casinhas com bonecas, João Chumbo se esmerava na confecção de um revólver de pau. Gostava de assistir fitas de seriados, onde prestava atenção nos trabucos fumegantes dos pistoleiros do velho Oeste americano. Talvez por isso, ele nunca foi bem-comportado. Era mau aluno, burrinho, rebelde e sempre muito indisciplinado. Não se sabe como conseguiu sair do curso primário e passar no exame de admissão para o ginasial.
Sempre obcecado pelo cartucho e pelas armas de fogo, já caminhando para a mocidade, em uma barganha teve seu sonho realizado. Ficou dono de um revólver de verdade e, sua baixa estima de menino tongo e tonto, passou a repousar no revólver. Seu sonho desde pequenote estava realizado e, ele, de revólver na cinta era um herói – imagina então, quando comprou um coldre.
Ele gostava de namorar, mas nunca uma filha de Eva ouviu de seus lábios: “eu te gosto”. Daquele Joãozinho burrinho e complexado surgiu o João Chumbo, sempre azedo e enfezado. Jamais mostrava os dentes. João Chumbo fez do revólver seu catecismo, seguia nele os seus mandamentos. Sua lei era crivar de chumbo, vociferava.
Muito cedo João Chumbo abandonou os estudos e passou a ser o herói das noites. As quengas, como medo, lhe saciavam a libido. Quando deitado, demorava a dormir, o sono lhe fugia. Tinha revoadas de pensamentos. Imaginava então mil façanhas, onde surgia como herói, e saciando a vontade da coceira do seu indicador direito, fazia seu revólver fumegar e desbaratar o inimigo. Mas, ninguém era inimigo de João Chumbo, todos achavam graça de sua mania de arma. “Olha lá o João Chumbo, quem será que ele vai finar hoje”. Eram os buchichos de esquina.
João Chumbo nunca matou ninguém, por isso mesmo a polícia deixava que andasse armado. Ele cresceu, ficou homem feito, só tem um amigo – seu trinta –, que nunca abandonava, nem mesmo no leito. Não tem inimigos porque ninguém se preocupa com ele. É um vivente sem expressão. Mas, João Chumbo vive de revólver no coldre, pronto para ser sacado, “se cuidando dos seus inimigos”, diz ele.
Conta quem já proseou com João Chumbo que ele pensa ser respeitado, julga-se um homem cruel e valente nas horas de refregas. Diz que já esfregou o cano de seu revólver em muito focinho, por isso não é ofendido, não é provocado. Mas João Chumbo não amedronta ninguém, diz a história, nunca amedrontou, é só falácia. Assim é João Chumbo. Recebeu esse nome por amor ao revólver, às armas de fogo, não importando o calibre e a marca, se – Parabélum, Schimdt, Colt ou Taurus.
“Olha lá, quem será que o João Chumbo vai matar hoje?”. E, João Chumbo já homem, faz ainda da arma o seu catecismo. Reza por ela e pede para Nossa Senhora dos Projéteis que o conserve sempre valente. Ele, desde que adquiriu uma arma de fogo diz: “Hoje vou matar fulano, aquele desgraçado me paga. Mas, João Chumbo continuava virgem na matança humana. Quem é que vai matar hoje, João Chumbo? Mas, João Chumbo não mata ninguém, nunca dera um tiro sequer.
E, ele se apaixonou. De começo sentiu a felicidade. Foi traído, deixado por outro. A testa lhe doeu. Descarregou o trinta duas vezes, nela e nele. Crivou-os de chumbo.
João Chumbo não mata ninguém. Mata sim, por amor de corno.





