Causos da vida real.
Do contador de histórias e escritor da periferia Craque Kiko.
Membro da ALVI – Academia de Letras do Vale do Iguaçu.
A prole era uma escadinha, sete barrigudinhos. Os dois mais velhos, gêmeos, a cara de um era o focinho do outro. A situação não estava fácil para aquela família. Ainda em idade de puberdade era chegada a hora deles arrumarem um trampo para ajudarem a manter a casa. Pepa era o mais extrovertido, falador e metido a jogar futebol, sabia acariciar um balão de couro como ninguém. Pipa sendo mais introspectivo, torcedor ferrenho do Bangu, era muito ladino e amava ler gibis.
Uns amigos da bola, bancários, querendo melhorar o esquadrão de futebol da repartição, indicaram para Pepa uma vaga na instituição. Ele teria que se apresentar na tarde daquela sexta-feira para uma entrevista. Não foi encontrado, estava caçando passarinhos com uma cetra no Morro da Cruz. Forçando a barra, a sua mãe mandou no seu lugar o Pipa, afinal! Eles não saberiam diferenciar o Pepa do Pipa. Meio contra a vontade, Pipa vestiu a sua roupa de missa – uma calça pantalona azul marinho segurada por um suspensório e uma camisa de tergal branca com mangas compridas. O sapato usou o do irmão, e logo após o almoço se apresentou no Banco. Em uma entrevista rápida com o gerente, também técnico do time, Pipa foi contratado na hora e já ficou trabalhando aprendendo as tarefas.
No final daquele expediente, após às cinco horas da tarde todos os funcionários solteiros iriam para o esperado happy hour em uma lanchonete nas proximidades. Pipa tentou sair de mansinho do Banco e ir para casa, pois só estava com o pó do bolso. Foi segurado no braço pelo gerente, que garantiu que desta feita para ele era “boca livre”. Já perto da meia-noite, todos com os cornos cheios e o dono querendo fechar a lanchonete, decidiram terminar a noitada no famoso lupanar conhecido como Castelinho, localizado à esquerda da Ponte dos Arcos.
Já raiando o dia do sábado Pipa chegou em casa tonto e com a gola da camisa branca cheia de marcas de batom. Enquanto seu pai o olhava e pensava “meu filho está ficando um homem”, o pito da sua mãe foi grande. A proibição dela quanto ao serviço no Banco de nada adiantou. Segunda-feira pela manhã Pipa foi o primeiro a chegar no trabalho.
Pipa trabalhou por trinta e cinco anos naquele Banco. Chegou a gerente e trabalhou em vários Estados. Seu mano Pepa colocou um de seus “membros” a juro. Casou com a filha única de um fazendeiro, se tornando o maior produtor de gado leiteiro do Oeste catarinense. É, lógico, o esquadrão do Banco nunca levantou um troféu. Coisas do destino.





