REVOLTADO COM O MUNDO ATUAL

REVOLTADO COM O MUNDO ATUAL

Causos da vida real.

Do contador de histórias e escritor da periferia – Craque Kiko.

Membro da ALVI – Academia de Letras do Vale do Iguaçu.

O calor estava de lascar. O sol, impiedoso para aquela manhã, queimava. E, lá ia aquele senhorzinho, a pé, procurando caminhar pelas várias sombras dos prédios, com destino ao centro daquela cidade. Muito conhecido, cumprimentava um aqui outro por lá, isso quando não parava para uma prosa.

Naquele trecho do caminho, vindo em sentido contrário, um fulano bem branquelo destoava do pessoal encontrado. Pela lata do vivente, devia ter perto dos trinta. Negaceando para todo lado, e, às vezes, um celular, com cabelos pintados de branco, cortados quase rente ao couro, deixavam bem salientes as tatuagens azuladas não só no pescoço, como nos dois braços.

Nas duas batatas das pernas, percebia-se tatuadas com dois chifres as imagens do chefe das profundezas. Atado em uma canela, estava um relógio com pulseira preta. Na orelha direita havia incrustrada uma rodela branca, parecida com aquelas que os índios botocudos exibem nos beiços. Sem camisa, vestia uma bermuda de jeans, surrada. Calçava um encardido chinelo de dedo menor que os pés, onde em um deles na parte frontal da tira, via-se facilmente a utilização de um prego atravessado.

Frente a frente, com um cigarro no lado direito da sua boca, depois de puxar uma golpeada de fumaça, o vivente puxou um palavreado com o senhorzinho:

– E, aí vovô! Me solta ou quer que eu pegue na força uma verbinha para eu comprar uns badulaques ali no mercado. Pela tua vestimenta um belo tutu deve ter nestes bolsos.

Criado em outro estilo de vida, sempre fora da lida, a resposta do idoso saiu no ato:

– Vá procurar o teu bando seu jaguara. “Vai carpi um lote ou picá um cerro de lenha”.

Tá me tirando chefia. Cuidado! Comigo o buraco é mais embaixo. Só por que tem ar de “granfo” está se achando – respondeu o pedinte.

Tendo levantado o braço, num ato que pareceu que ia dar um tapa no senhorzinho, quando o vivente deu por si, estava com um olho arroxeando e preso em um sossega leão dado pelo idoso.

Foi num de repente que o local ficou cheio de gente. Não se sabe como, a dona justa também já se fazia presente. A ida até o doutor delega, ali perto, foi rápida. Rápido também, foi ficarem em audiência frente a frente com o homem da capa preta.

O cabelo pintado, que já tinha uma vasta ficha de passagens perante a lei continua andando livremente por aquela cidade. O senhorzinho, em certos dias da semana, presta serviço comunitário.

Comente pelo Facebook

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *